Revista da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Tecnologia
Vol. 4 Nº 1 Out. 2002
ISSN 1517 - 7432
 
 
Ser ou não ser cidadão: dilemas de construção da identidade social do "ser urbano" no projeto da cidade
 
  Walnyce Scalise 1
 
 
 
Scalise, W. Ser ou Não Ser Cidadão: Dilemas de Construção da Identidade Social do "Ser Urbano" no Projeto da Cidade. Revista Assentamentos Humanos, Marília, v4, n. 1, p73-82, 2002.
 
 
Abstract
 
     This paper intends to analyse the citizen's identity construction process. The social citizen identity like a whole social marks that determines the position of a subject in a social group and his possible adaptation, existence and expression through the city vivency and this building spaces or no and urban project process participation possibilities.
 
     Key Words: Citizen, citizenship, city, identity, urban project.
     Palavras-Chave: Cidadão, cidadania, cidade, identidade, projeto urbano.
 
 
 
1 Arquiteta e Urbanista pela FAUUSP, Mestre em Comunicação e Estudos de Linguagem, Professora de Paisagismo, Projeto Urbano, Arquitetura e Urbanismo Contemporâneos na UNIMAR.
 
 
Introdução
 
     Para a Antropologia, a análise de certas áreas ou dimensões de uma sociedade envolve o contato, a vivência, o que permite conhecer situações e indivíduos a partir de um sistema de interações culturais e históricas, também para a Arquitetura, na compreensão e alteração do espaço e da paisagem é necessário o conhecimento global da realidade para poder alterá-la pelo projeto.
     A realidade é sempre filtrada pelo ponto de vista do observador que escreve, fala e atua tendo como pano de fundo um lugar, tempo, história e cultura que lhe são específicos. O "eu" que escreve, também deve ser pensado como parte do contexto da análise. Sou arquiteta, professora, desenvolvendo pesquisas nas áreas de urbanismo e paisagismo, buscando caminhos para a interação usuário, cidade, espaço livre e/ ou edificado e a necessidade de qualificar os lugares.
     Através de reflexões baseadas no marco teórico da disciplina "Educação e Construção Social da Identidade" na Pós Graduação em Educação- UNESP, Marília, surgiu o presente trabalho, cujo objetivo não é pensar na idéia tradicional de cidadania como conjunto de direitos e deveres juridicamente especificados, mas numa cidadania como produto de aprendizado de significados disponíveis socialmente para o exercício dessa atividade humana, ação decorrente da percepção, leitura, associações e inferências que o indivíduo desenvolve no seu cotidiano. O indivíduo capaz de uma percepção urbana que lhe possibilite alternativas de ação, condição indispensável ao exercício da cidadania e reconhecimento de sua capacidade de luta para diminuir desigualdades, na defesa dos interesses coletivos, que não se resume só à questão socioeconômica e conflito de classes mas no uso cotidiano dos espaços, equipamentos e serviços públicos urbanos, onde podem ser sentidos os impactos da qualidade ambiental.
     A identidade é vista como existente "dentro de um contexto cultural" CHEROBIM e como construção histórica- social, produto de situações vivenciadas: a experiência, as situações de contato, as relações interétnicas e o processo de humanização, além das particularidades dos grupos e construção histórica e cultural do seu imaginário que movem ações, interesses e expectativas.
     A imagem que cada indivíduo constrói, mais que referência visual, é a representação ativa do seu comportamento, formado pelo conjunto de pequenos mitos, ritos, tabus, complexos positivos e negativos. Da atitude nascem os significados, valores que direcionam ao espaço visual em que se estabelecem identidades, que se manifestam pela imagem que se forma do indivíduo, a representação ativa do seu comportamento. A passagem dessa imagem individual para a coletiva pode contribuir para enriquecer propostas de transformação da sociedade, do urbano ou da paisagem.
     O espaço, que se transforma em lugar a partir da experiência vivida, está relacionado ao sentimento de identidade. Ao buscar a emergência de um conteúdo de significado e qualidade urbanos, o importante não é criar uma cidade, mas formar um grupo de pessoas que tenham o sentimento de cidade, pois os conceitos estéticos, padrões culturais e valores afetivos podem variar de indivíduo para indivíduo ou grupos, no tempo e no espaço.
     Considera-se a cidade, o lugar por excelência do contato interétnico, entendendo-se como tal, segundo OLIVEIRA, as relações entre indivíduos e grupos de diferentes procedências "nacionais", `raciais" ou "culturais". A forma pela qual a cidade é projetada, construída e apropriada reflete uma elaboração filosófica e cultural, resultado da observação do ambiente e da experiência individual ou coletiva com relação a ela.
 
Sobre as Possibilidades da Pesquisa
 
     "É através do processo de socialização urbana que os cidadãos aprendem os direitos e deveres, papéis e atitudes típicas de seus grupos. A pesquisa individual pode investigar os sistemas de significados e os princípios sociais, estruturas que organizam as possibilidades de interação em diferentes comunidades" (Hawkeswood, 1996 apud PARKER).
     A consciência dos modos através do quais os grupos estruturam suas possibilidades de contato social, das relações cultura e poder, faz com que a pesquisa se volte à percepção de uma série de questões mais amplas no sentido de ultrapassar limitações " visando um construcionismo social mais fundamentado e politicamente relevante" LANCASTER, 1996. Compreender o contexto de interações sociais é mais importante que a compreensão do comportamento do indivíduo.
     A possibilidade recente de novas metodologias de pesquisa busca uma compreensão mais abrangente de culturas e identidades, com resultados mais diretos e aplicáveis aos problemas urbanos mais imediatos.
     A atenção na pesquisa deve intentar ao fato de que a desigualdade, a injustiça e a exclusão social que "não são fatos imutáveis mas artefatos da história" PARKER, e que são possíveis de serem transformados, através de ações e iniciativas intencionais, projetos e intervenções. A pesquisa deve ainda conceber uma cidadania que inclua e garanta, na experiência cotidiana dos cidadãos organizados em grupos, a socialização e o aprendizado, assim como o conhecimento da história promovendo a construção de uma postura social e política crítica.
 
A Construção Social da Identidade de Cidadão
 
     "...Não sei quem sou, não tenho documentos, só impressões digitais..."
      Um morador de rua
      Na construção social das identidades, quais os valores a considerar? A questão dos papéis sociais, a questão do espaço de prestígio e do reconhecimento no grupo, a questão do discurso, criam uma melhor facilidade de tratar certos aspectos do grupo.
     O estudo intensivo de uma ideologia permite construir um conjunto articulado de modos de identificação. "Para cada relação de identidade corresponde uma relação de status ( direitos e deveres) OLIVEIRA. A partir da leitura dos textos: Papéis, Personagens e Pessoas, de Carlos Rodrigues BRANDÃO e Identidade Étnica, Identificação e Manipulação, de Roberto Cardoso de OLIVEIRA, surgiram os conceitos de identidade individual e social e de cidadania.
     É importante "buscar no interior de uma cultura de contato" OLIVEIRA, soluções para problemas como a recuperação do repertório cultural e criar condições de reafirmação dessa cultura, e espaços capazes de estimular o interesse dos usuários, permitindo interações sociais, passando da "identidade negativa" à "identidade renunciada" vista por Erikson apud OLIVEIRA, como algo a ser recuperado, que é latente, "ponte do passado para o futuro". Segundo Jáuregui, nas intervenções do Favela- Bairro, o objetivo é "introduzir uma semente de urbanidade no coração de cada comunidade, capaz de contaminar positivamente o tecido urbano e social".
     A partir da percepção da cidade como categoria abstrata, feita pelos "outros", o indivíduo resiste a organizar-se como cidadão. Não existe coesão entre os grupos e, quanto mais se dispersam, mais ocorre o esvaziamento cultural. Trata-se de trabalhar a identidade étnica (OLIVEIRA) como valor possível de escolha em situações determinadas, de escolhas estratégicas, da dimensão transacional da identidade para assegurar ganhos maiores que as perdas.
     Á medida que os indivíduos vão se desenvolvendo enquanto pessoa, as relações sociais se ampliam, as necessidades e as percepções também. A percepção do cidadão está vinculada à necessidade, se a necessidade for pouca, a percepção também o é, e ocorre que só se absorve a informação que se sente necessidade. "A construção das imagens percebidas passam pelo emaranhado de suas culturas, nos pontos de intersecção com suas vidas pessoais" BRANDÃO.
     Apesar da retórica da necessidade de expandir a "cidadania cultural" e o "multiculturalismo", a diversidade de culturas, enfocando ainda o descaso com os problemas sociais, as minorias e a educação, o que ajuda a legitimar a discriminação e a exclusão, diminuindo a possibilidade de integração nas cidades, a melhoria de oportunidades e igualdade de acesso à cidadania. GILLIAM parte da reflexão sobre formas de erosão do princípio de igualdade causada pela dinâmica de globalização econômica, da perda da segurança no emprego, do crescimento da desigualdade no momento de crise econômica atual, da dificuldade de conseguir trabalho que garanta a sobrevivência trabalho e da diminuição de auxílio financeiro para a educação, diminuindo as possibilidades de integração nas escolas, de igualdade e oportunidades.
     A problematização e reflexão das dimensões de nacionalidade, laços de sangue, essências de etnia, raça e classe, isoladamente, não pode representar a idéia de quem somos no mundo. A estratégia para se obter um poder coletivo implica no reconhecimento de uma "cidadania cultural", enraizada na identidade cultural. História e identidade cultural estão alojadas na memória e na alma da vida cotidiana. A lembrança é fundamental para a sobrevivência pessoal.
     A construção da identidade vem da
idéia que o indivíduo passa a ter do lugar, valores, cultura, história e relacionamentos sociais. Segundo OLIVEIRA, a pessoa consegue identificar-se a partir do sentimento de pertencer a uma organização social, num tempo e espaço identificáveis ao que pode-se acrescentar a necessidade de conferir um sentido de continuidade histórica, de locus, relacionado à necessidade de restabelecer um sistema estável com o fortalecimento da identidade individual e coletiva, permitindo a `religação social", para a qual são necessárias a peculiaridade cultural do grupo e a identificação pessoal.
     A partir da identidade social entendida como um conjunto de marcas sociais que posicionam uma pessoa em um mundo social determinado, HEILBORN vê a modelação da pessoa através:
     1) de elementos de traços e atributos que classificam o sujeito (ex.: idade, gênero),
     2) do campo das significações sociais,
     3) da articulação da imagem individual e da relação com o outro.
      "Identidade social é a moldura possível entre os sujeitos podem existir e se expressar, constitui-se na atualização de princípios de classificação social ordenados por valores que "fabricam" e situam os sujeitos". HEILBORN
     Ser ou não cidadão não depende só do fato biológico de nascer humano, que é um traço individual, mas a partir daí, o resto é social e inclui assumir e desempenhar papéis nas relações com outras pessoas, relações sociais concretas e que mudam com a história.
     Nas relações sociais, as situações que ocorrem fora dos padrões estabelecidos, em relação a aspectos culturais, por exemplo, como no fato urbano e as situações dos sem- teto, dos favelados, destituídos de cidadania acaba por torná-los desobrigados dos direitos e deveres para com o lugar, as pessoas, até consigo como pessoas, além de relações hostis para com o lugar ou com o próprio grupo, gerando respectivamente deterioração e violência.
     A imagem da cidade, do lugar, das pessoas tem grande importância na elaboração da urbanidade, da memória e da identificação. Decifrar uma cidade é um aprendizado que conduzirá a uma educação ambiental, que prevê a participação dos cidadãos numa cidadania consciente, exercida.
 
O Cidadão Moderno Brasileiro
 
     Nas discussões sobre o que significa ser membro do Estado Moderno tem-se a cidadania. A condição de membro nunca foi uma identidade estática pela dinâmica das migrações. Buscando manter o sonho de construção do futuro e a capacidade de reconstruir a idéia de nação que valorizasse a experiência estética e histórica, inicia-se a transformação da realidade de dispersão da vida social em realidade simbólica, evidenciando valores capazes de vincular o passado ao futuro.
     Conectados ao pensamento mais amplo dos intelectuais contemporâneos, os arquitetos procuram intervir na realidade, tendo como ponto de referência, entre outros, a herança modernista. Segundo o pensamento modernista, o trabalho era considerado o principal meio de integração do homem à sociedade, transformando-o num cidadão-trabalhador. O Ministério do Trabalho junto com o da Educação e Saúde foram instrumentos para a construção do novo cidadão brasileiro.
     Era necessário elevar o nível das camadas populares e para isso foram utilizados diversos meios: a música, a educação física, o cinema, o rádio e a habitação. A habitação existente, com péssimas condições de higiene, seria substituída pela casa moderna, onde os arquitetos buscaram elevar seu modo de vida de forma a resgatar a dignidade perdida na sub- habitação. Os arquitetos modernos inseriram-se em um movimento intelectual mais amplo que assumia uma postura intervencionista em relação às camadas mais pobres, implicado em conceber uma identidade nacional.
     Os modernos possuíam um projeto de nação e de cidade mais globalizante e inclusiva da realidade brasileira. As estruturas modernas, simplificadas e multiplicáveis tornariam mais próximas as casa de ricos e pobres no aspecto construtivo, além de possibilitar a construção em larga escala
     A valorização da experiência estética e histórica, elaborada no dia-a dia por grupos diferenciados acabaram por transformar a realidade em algo fragmentado e o discurso modernista não conseguiu atingir seus objetivos de igualdade. A cidadania muda à medida que seus membros fazem reivindicações, expandindo seu alcance e, novas formas de segregação e violência se contrapõem a esses avanços. Hoje, em muitas cidades, o processo de mudanças: a industrialização, a migração, as invasões, os movimentos de gangues, do sem-teto, a revolução social, etc.. introduz novas identidades que representam novos espaços de cidadania.
 
Que Cidadania? Que Direitos?
 
     Segundo o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, "cidadania é a qualidade ou estado do cidadão", e entende-se por cidadão "o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um estado, ou no desempenho de seus deveres para com este". No sentido etimológico, a palavra cidadão deriva da palavra civita, que em latim significa cidade, e que tem seu correlato grego na palavra politikos _ aquele que habita na cidade. No sentido ateniense do termo, cidadania é o direito da pessoa em participar das decisões nos destinos da Cidade através da Ekklesia (reunião dos chamados de dentro para fora) na Ágora. Na democracia grega somente 10% da população determinava os destinos da cidade (eram excluídos os escravos, mulheres e artesãos). Ser cidadão é respeitar e participar das decisões da sociedade para melhorar a qualidade de vida. A cidadania deve ser divulgada através de instituições de ensino e meios de comunicação para o bem estar e desenvolvimento da comunidade. A cidadania consiste desde o gesto de não jogar papel na rua, respeitar as pessoas e os lugares, até saber lidar com o abandono e a exclusão das pessoas necessitadas, o direito das crianças carentes e outros grandes problemas que se enfrenta na cidade. "A revolta é o último dos direitos a que deve um povo livre para garantir os interesses coletivos: mas é também o mais imperioso dos deveres impostos aos cidadãos."Juarez Távora.
     Mais do que ser livre e ter direitos, só é cidadão legítimo aquele que também cumpre seus deveres, que participa da vida de sua comunidade e de sua cidade. Na teoria democrática, a noção de cidadania está ligada à definição legal de direitos e obrigações que a constituem. A história é longa e complexa que pode ser vista em T.H. MARSHALL, um clássico no tema, que estabelece uma progressão histórica implicando a extensão dos direitos civis, a expansão dos direitos políticos até os direitos sociais. Além da referência aos direitos, a cidadania inclui responsabilidade e deveres, o compromisso cívico, de participação ativa no processo público e os aspectos simbólicos e éticos, o que promove a consciência de ser um sujeito com direito a ter direitos.
     Deve-se pensar numa cidadania que inclua e garanta, na experiência cotidiana dos cidadãos organizados em grupos diferenciados, a socialização e o aprendizado da educação estética e ambiental assim como o conhecimento da história. A compreensão da idéia de cidadania estética supõe práticas de significação, de atribuição de sentido,numa permanente reinvenção das formas de convívio social.
      A Cidadania e sua História- Desde a pólis grega há a definição do que seja um cidadão verdadeiro porque vivia-se uma democracia parcial de homens livres e os relacionamentos eram debatidos em forma de direitos e deveres. O homem exercitava as duas esferas principais de sua convivência em comunidade: a privada, dos assuntos particulares e a pública, comum a todos os cidadãos.
     A palavra cidadania foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. A sociedade romana fazia discriminações e separava as pessoas por classes sociais. Na Idade Média surgiram, na Europa, os feudos (ou fortalezas particulares) e a idéia de cidadania se acaba, pois os proprietários dos feudos passaram a mandar em tudo e os servos não podiam participar de nada.
     Nos séculos dezessete e dezoito, quando na Europa já estavam começando os tempos modernos, havia também a divisão da sociedade em classes, lembrando muito a antiga divisão romana. Os nobres gozavam de muitos privilégios, eram proprietários de grandes extensões de terras, não pagavam impostos e ocupavam os cargos políticos mais importantes.
     Surge um novo tipo de Estado, o Estado de Direito, que é uma grande característica do modelo atual. A principal característica do Estado de Direito é: "Todos tem direitos iguais perante a constituição", percebendo assim, uma grande mudança no conceito de cidadania. Trata-se do mais avançado processo que a humanidade já conheceu, porém, por outro lado surge o processo de exploração e dominação do capital.
     Acontece a grande contradição: cidadania X capitalismo. Cidadania é a participação de todos em busca de benefícios sociais e igualdade. Mas a sociedade capitalista se alimenta da pobreza. Para mudar essas idéias o cidadão deve manter a vitalidade para as reivindicações e para criar seus próprios conceitos, daí a escola aparece como um fator fundamental.
      Quanto a valores intrínsecos, tem-se que reportar ao segundo período do Estado de Direito, que teve seu início em meados do século XIX, no qual atribui-se ao Estado a missão de buscar a igualdade entre os cidadãos e para atingir essa finalidade, o Estado deve intervir na ordem econômica e social para ajudar os menos favorecidos, portanto, a preocupação maior desloca-se da liberdade para a igualdade.
     O individualismo, que imperava no período do Estado Liberal, foi substituído pela idéia de socialização, no sentido de preocupação com o bem comum, com o interesse público, o que não significa que os direitos individuais deixassem de ser reconhecidos e protegidos, mas estendeu-se o seu campo, de modo a abranger direitos sociais e econômicos.
     O fracasso do chamado Estado Social de Direito era evidente, não houve a mínima possibilidade de que milhões tivessem garantidos direitos sociais dos mais elementares, como saúde, educação, previdência social, moradia. Até hoje, grande parte da população não tem assegurado o direito a uma existência digna.
     Quando se fala em ser humano, em individualidade e em sociedade, não se deve deixar de citar o lema "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" usado na Revolução Francesa, em 1784, ideal que não foi atingido durante a Revolução e nem atualmente. O Estado, na forma como se organiza, tendo em vista uma cidadania melhor, acaba por propor e criar políticas sociais que não levam em conta o cotidiano e a construção de uma cidadania crítica, participativa e de qualidade.
     Como se dá a evolução do ser humano ao ser indivíduo ao ser pessoa e finalmente ao ser cidadão, seus direitos e deveres individuais e com o grupo? São perguntas ainda sem respostas totalmente estruturadas no presente trabalho mas já apresenta um caminho a percorrer.
     Este quadro sintético coloca uma percepção pessoal sobre como se processa a "evolução" do Ser Humano até o Ser Cidadão:
 
Fonte: www.mundodosfilosofos.com.br/ArtigoProf.Dr.Vanderlei
 
     A cidadania coletiva se constrói no cotidiano através do processo de identidade político- cultural que as lutas cotidianas geram a partir do aprendizado, da forma critica de ver o seu mundo e da participação social, preocupação que existe nas grandes cidades, na migração campo- cidade, com assentamentos marginais que se formam nas periferias da cidade legítima, confirmando a segregação dos menos favorecidos, com pouca ou nenhuma participação e capacidade de organização, reforçando a questão da não- identidade com a cidade.
 
A Cidade do Cidadão
 
     O crescimento das cidades contemporâneas, a fragmentação do tecido urbano, os contatos interétnicos das migrações, já não deixam mais distinguir o que faz e o que não faz parte das culturas locais, perde-se a relação do usuário com seus espaços.
     As raízes da degradação urbana devem ser encontradas na forma como o ser humano se identifica e se organiza em padrões de poder, produção e ideologia. A forma pela qual a cidade é projetada, construída e apropriada reflete uma elaboração filosófica e cultural, resultado da observação do ambiente e da experiência individual ou coletiva com relação a ela, pois "não é fácil separar a dimensão individual da construção e do exercício cotidiano da identidade de sua dimensão social" BRANDÃO.
     A alteração do espaço e da paisagem urbana ocorre num processo contínuo, em função das necessidades da sociedade que, no decorrer do tempo, deles se utiliza de maneiras diferentes, alterando, renovando e até suprimindo, dando origem a novas paisagens. Os conceitos estéticos, padrões culturais e valores afetivos podem variar de indivíduo para indivíduo ou grupos, no tempo e no espaço, como ocorre no "encontro de culturas diferentes alterando as identidades que o sujeito faz de si e dos outros" BRANDÃO.
     A necessidade de preservar o passado da cidade, de conferir um sentido de continuidade histórica, de locus, relaciona-se à necessidade de restabelecer um sistema estável com o fortalecimento da identidade individual e coletiva, permitindo a `religação social", do processo de assimilação (OLIVEIRA) para o qual são necessários a peculiaridade cultural do grupo e a identificação étnica pessoal.
     O estudo da paisagem urbana está intimamente ligado com a percepção ambiental, que está sujeita ao imaginário do indivíduo e de cada sociedade. A noção de lugar simbólico é a responsável pela passagem de paisagem natural para cultural em determinado grupo social. Erikson, apud OLIVEIRA, relaciona a intimidade do processo de identificação com o mundo social que acaba por condicionar a percepção e as experiências de vida do indivíduo. É necessário compreender o processo de produção da paisagem urbana para poder alterá-la. As raízes da degradação urbana devem ser encontradas na forma como o ser humano se identifica e se organiza em padrões de poder, produção e ideologia.
     No Brasil, percebem-se características de vários modelos urbanísticos, além de uma urbanização rápida e descontrolada que ocorre com a migração cidade-campo, com assentamentos marginais ou conjuntos habitacionais que se formam nas periferias da cidade legítima, confirmando a segregação, o locus da exclusão, dos menos favorecidos. Com pouca participação, capacidade de mobilização e organização, reforça a questão da não- identidade com a cidade, um paralelo à "identidade negativa" de Erikson, apud OLIVEIRA, a soma das identificações e fragmentos de identidade que o indivíduo tem que reprimir por serem indesejáveis ou pela qual as minorias são forçadas a se sentir diferentes.
     É fundamental reconhecer que a população periférica constituída basicamente por ex- trabalhadores rurais, ou de centros menores, com subempregos e dificuldade de acesso aos serviços públicos, possui hábitos e costumes absorvidos pela cultura urbana.
     O problema do desenvolvimento de uma nova imaginação social em planejamento urbano e paisagístico, sugere que as expansões e erosões da cidadania sejam centradas na experiência urbana vivida, constituindo um urbanismo insurgente que informa sobre relações sociais fundamentais da multiplicidade, da heterogeneidade e que age contra a absorção da cidadania, num projeto de construção do Estado.
     Entender essa multiplicidade é aprender a ler o social. O projeto de repensar o social em planejamento é importante porque revela um domínio que está enraizado na experiência vivida.
     É fundamental que as organizações assumam o seu papel social e contribuam eficazmente para o desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida nas cidades, contribuam para resgatar a ética no relacionamento humano e,além de aspectos da moral, a necessidade de preservar o passado, da continuidade histórica e o fortalecimento da identidade individual e coletiva.
     A Educação Ambiental deve provocar mudanças de comportamento, criar uma nova atitude social, abrir mentes. Deve estar presente em políticas governamentais e ajudar a formar cidadãos. A educação ambiental no âmbito da formação de um cidadão é antes de tudo, direito de educação global, de democratização uma casa, boas condiçoes sanitárias, de ter um emprego... de simplesmente "ser" cidadão.
 
Considerações Finais
 
     Pensar a cidade hoje significa trabalhar com os conflitos e os distintos interesses, com as forças que constroem e destroem a cidade. As idéias modernizantes projetaram a cidade a partir dos conceitos de centro e de periferia, ao mesmo tempo em que se acreditava na possibilidade de uma homogeneização, num modelo único. Determinavam-se, assim, zonas de uso exclusivo, que destruíram a sociabilidade. O resultado está aí: criaram-se barreiras rígidas que precisam ser removidas, a população perdeu totalmente a imagem e o sentimento de cidade no sentido de lugar esvaziado de urbanidade.
     Partes da cidade parecem ter se desgarrado do resto do corpo, fragmentos da história do lugar e de sua gente sobrevivem esmagados por uma massa de construções, "caixas" vazias que não deixaram espaço para os habitantes, para lugares públicos, para o verde, constituindo assim um" lugar sem pessoas e pessoas sem lugar" Jauregui.
     Hoje a cidade, uma entidade histórica absolutamente unitária segundo ARGAN, fica afastada, impedida, e reclama por uma recuperação e re-simbolização, e uma das grandes tarefas culturais do urbanismo atual é resgatar as periferias e as áreas degradadas de uma condição de inferioridade ou até mesmo de semi-cidadania.
     A população é o sustento subjetivo de um lugar e esta subjetividade, intercambiada permanentemente numa cidade, estabelece a circulação cultural e quando esta circulação é interrompida é necessário recuperar a cidade, para transformar o "não lugar" num novo tipo de urbanidade, que possa funcionar como orientador de um processo de transformação e identificar os elementos arquitetônicos e espaciais que permitam ao cidadão interagir com o meio, num processo de auto-identificação e de afirmação da sua singularidade.
     É necessária ao cidadão a visão básica, e ao mesmo tempo global, democrática, dos direitos e deveres de todo indivíduo, que deve instigá-lo a pensar e atuar como cidadão. Aprender a procurar, sempre, seu direito de sobreviver.
 
 
Bibliografia
 
      ARGAN, Giulio C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

     BRANDÃO, Carlos R. Identidade e Etnia. Construção da Pessoa e Resistência Cultural. São Paulo: Brasiliense, 1986.

     CHEROBIM, Mauro. Cultura e Identidade em nosso cotidiano. Artigo de Jornal. Morretes, jul/ 1997.

     GILLIAM, Ângela. Globalização, Identidade e os ataques à igualdade nos Estados Unidos in Identidades- Estudos de Cultura e Poder. São Paulo:Hucitec, 2000.

     HEILBORN, M. Luiza. Ser ou estar homossexual in Sexualidades Brasileiras. Rio de Janeiro: Relume Demurá, 1996.

     JAUREGUI, Mario. Outra Forma de Desenvolvimento. Artigo Rio de Janeiro: 1998

     MARSHALL, T.H. Citizenship and social democracy. New York: Doubleday, 1964.

     OLIVEIRA,Roberto C. Identidade, Etnia e Estrutura Social. Capítulo 1- Identidade étnica, identificação e manipulação. São Paulo: Pioneira,1976.

     PARKER, Richard. Cultura,Economia Política e construção social da Sexualidade in O Corpo Educado. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

     SCHILLER, Nina G. Laços de Sangue in Identidades- Estudos de Cultura e Poder. São Paulo: Hucitec, 2000.

     Internet
     www.cidadaniasp.com.br

     www.mundodosfilosofos.com.br

     www.webciencias.com/18cidadania.htm