Revista da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Tecnologia
Vol. 4 Nº 1 Out. 2002
ISSN 1517 - 7432
 
 
Consolidação da Arquitetura Escolar no Estado de São Paulo: destaque na produção geral de arquitetura no estado
 
  Carlos Augusto Razaboni 1
 
 
 
Razaboni, C. A. Consolidação da Arquitetura Escolar no Estado de São Paulo: destaque na produção geral de arquitetura no Estado. Revista Assentamentos Humanos, Marília, v4, n. 1, p39-47, 2002.
 
 
Abstract
 
     The methodology of standardization of the components and environments of schools of the FDE - Foundation for the Development of Education, is the projectual basis in the project of public schools in Sâo.Paulo state. In this case study we demonstrate the application of the methodology with the use of prefabricated structure in the project of Paulo Mendes da Rocha.
 
     Key Words: School architecture; standardized components;management of projects.
     Palavras-Chave: Arquitetura escolar; componentes padronizados; gerenciamento de projetos.
 
 
1 Mestre pela Universidade de Säo Paulo e prof. do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Marília - Unimar.
 
 
Escolha do Projeto
 
     Na produção recente de edifícios escolares no Estado de São Paulo, destacamos em nossa dissertação de mestrado as escolas do Plano 1 do Banco Mundial, desenvolvido em 1991. Dentre as escolas selecionadas para o mencionado trabalho está a EE Jardim Novo Horizonte II, cujo projeto arquitetônico é de Paulo Mendes da Rocha.
 
 
 
     O projeto é o mais representativo, no Plano Ano 1, da "Escola Paulista" ou "Brutalismo Paulista", que de acordo com Maria P. Albernaz em: Dicionário Ilustrado de Arquitetura, editado pela Pro Editores, foi uma produção destacada pela historiografia, com uma qualificação em oposição à arquitetura moderna desenvolvida à partir do Rio de Janeiro, que foi a corrente hegemônica brasileira. De acordo com Fernando Sarapião em: O Edifício e a Cidade Inexistente (Arcoweb), esse movimento nativo pretendia além disso, quebrar a influência corbuseriana e formou-se pôr profissionais de vanguarda, muitos influenciados, pelo marxismo, comprometidos com idéias sociais e que haviam se decidido a afastar-se do mercado imobiliário. Tinha na riqueza do espaço interno um de seus pontos fundamentais e desenvolveu-se basicamente em projetos de escolas e residências unifamiliares.
 
Autor do Projeto
 
 
 
     Paulo Archias Mendes da Rocha é formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie e professor da Universidade de São Paulo. É um dos mais importantes representantes da chamada "Escola Paulista". Iniciou sua carreira com Villanova Artigas. Dentre as realizações mais importantes, destacam-se a do Clube Atlético Paulistano (São Paulo, 1957), o pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Osaka (1969), o terminal de ônibus de Goiânia (1985) e o museu da escultura (São Paulo, 1988).
 
O Projeto que alia o sistema de componentespadronizados da FDE à execução com pré-moldados
 
     O setor pedagógico é organizado ao redor do galpão, situado no térreo distribuindo as salas de aula em três pavimentos acima.
 
 
     O piso térreo, em grande parte sob o vão central, é a área pública pôr excelência da escola. De acordo com a idéia de Paulo Mendes da Rocha é a afirmação do público sobre o privado, e continua "mas é necessário dizer que se trata de uma visão formal sempre engajada de um projeto político mais amplo, onde o indivíduo que tem acesso livre ao chão da cidade é o emblema de uma sociedade igualitária e democrática".
     A apropriação pela comunidade de equipamento como esse é o sinal de processo social, de distribuição de avanços tecnológicos e de cultura.
     Rocha já destacou a idéia do que é fundamental na arquitetura como a relação de qualidade entre o projeto e a construção, mostrando que a beleza existe onde existe a relação direta entre um material (sua estrutura, densidade, textura, temperatura...) e sua lógica construtiva e portanto seu lugar na obra. Enfatizou as tecnologias humanas dirigidas a construção como elementos de afirmação do que é humano.
     Os painéis de elementos vazados, no galpão e em toda sua altura de 4 pavimentos, não receberam nenhum fechamento em vidro. Os materiais aparentes adquirem a expressão máxima, com o mínimo de componentes.
     Do interior do vão central, o elemento vazado permite uma visualização da paisagem circundante. O painel de mosaico que se forma, sublima a vista das casas sem reboco da periferia, ao mesmo tempo em que a exposição permanente das mesmas as afirma.
 
 
     A poesia não para aí, a solução extremamente limpa proporciona monumentalidade à escola de primeiro grau.
     Tanto externa como internamente a linguagem da arquitetura encontra-se em sintonia com a proposta de padronização de componentes e de coordenação modular da FDE. Painéis pré-moldados, blocos de cimento sem revestimentos e esquadrias padronizadas formam as paredes das salas de aula, que se compõe ainda de lajes em painéis pré-moldados sem revestimento e instalações aparentes.
     O exemplo de Rocha com sua estrutura pré-moldada e seus componentes pré-fabricados, adequando-se a um projeto específico, mostra-nos as opções que diretamente podem se confrontar com a produção de edifícios escolares padronizados em sistema único, política usual à época em vários órgãos governamentais responsáveis pela construção de escolas.
     A confrontação com os exemplos desses sistemas parece ser um dos objetivos do arquiteto, que todavia não nos foi expresso, mas arriscamos aqui que um dos objetivos ocultos do Plano Ano 1 tenham sido alcançados.
     A produção caso a caso da FDE é importante na afirmação da individualidade de projetos arquitetônicos, pôr sua capacidade de ampliação de alcance junto à comunidade. A afirmação disso significa a afirmação da importância do trabalho do arquiteto no mercado de trabalho em geral, onde cada vez mais o projeto tem sido deixado de lado ou relevado à uma posição inferior à que realmente deve ocupar.
 
 
     O terreno de dimensões reduzidas não permitiu a criação de outros espaços de convivência à exceção de um pequeno anfiteatro. Assim, não aparece nesta escola árvores, vegetação de caráter paisagístico e mobiliários externos.
     A região permanece carente de equipamento público dotado de espaços e paisagismo que propicie horas de lazer comunitário.
     Apesar das dimensões do terreno e de sua configuração, não foram utilizados recursos de paisagismo, faltando áreas de sombreamento no terreno da escola, bem como em seu entorno imediato . O terreno acaba apresentando-se como a paisagem circundante, cuja ausência de vegetação expõe claramente a paisagem de construções não acabadas, provocando sensações de abandono e desconforto ao observador.
 
O Plano
 
     O Plano Ano 1 do Banco Mundial realizado pela FDE - Fundação para o Desenvolvimento da Educação em 1991, consistiu no projeto de 60 escolas públicas de ensino fundamental na região metropolitana de São Paulo. Dentro da metodologia de padronização de ambientes e componentes, neste plano permitiu-se aos arquitetos uma maior liberdade e também uma melhoria na qualidade dos materiais a serem empregados. O que não ocorria desde a década de 70 quando a preocupação era a produção em massa de escolas com excessiva rapidez e economia.
     A metodologia possibilita ao órgão um controle em termos de custos e prazos e aos arquitetos uma grande liberdade projetual. O Plano foi uma demonstração disso, tendo havido uma grande diversidade de projetos.
     O exemplo de Paulo Mendes da Rocha também pode ser utilizado para se questionar as obras públicas realizadas em regime de licitação em que o preço é o critério único de seleção das propostas concorrentes. É evidente que a questão técnica, neste edifício se sobrepõe às economias de um projeto que ao mesmo concorresse. É um projeto sofisticado, bem detalhado, cujo custo pôr si, num certame tipo técnica e preço, é questão secundária, não eliminando-o desta virtual competição.
     A divulgação deste exemplo junto aos arquitetos, engenheiros e agentes em geral da produção arquitetônica se faz necessária, bem como às gerações futuras que se encontram nas escolas e que podem dessa forma conhecer a produção de um passado recente, possibilitada pôr uma legislação menos restritiva e mecânica como a que agora terão que se defrontar.
     Na impossibilidade de trabalharem com mais liberdade e reflexão sobre o tema, poderão assimilar o grau atingido pôr seus antecessores, alguns verdadeiros mestres e que tiveram essa possibilidade de trabalho.
 
A propósito da divulgação do Plano Ano 1 a opinião do arquiteto interlocutor da FDE é a que segue:
 
     "O plano de 60 escolas eqüivale à uma cidade do tamanho de Londrina no Paraná, de 500.000 habitantes. Se você fosse fazer alguma avaliação, ele teve algum impacto na divulgação? Eu tive conhecimento da existência dele pôr ver as maquetes dos projetos quando fazia um projeto de reforma de uma escola no ano seguinte. No entanto em termos de divulgação algumas publicações nas revistas AU e Projeto, fizeram referência a essas escolas. A nível internacional ele foi citado, pôr ter tido verbas do Banco Mundial? Essa informação da concretização do plano foi adiante?"
     "A divulgação aqui no estado de São Paulo foi fraquíssima. Só foi publicado pôr iniciativas de alguns escritórios. Eu acho que uma experiência dessas tinha de ser publicada, analisada, vista, mostrada. É uma coisa considerável. Sessenta escolas ao mesmo tempo vai mostrar um grupo de profissionais. A produção cultural desse grupo num determinado momento atendendo a determinado programa, à exigências determinadas, você vai conseguir ler as cabeças das pessoas que fizeram aquilo. É uma produção cultural super significativa mas que no fim não teve nenhuma discussão. Na verdade ela não se abre para fora, fica introvertida completamente. É uma coisa muito importante, num determinado momento está acontecendo uma certa coisa, tem uma resposta "x" . E uma leitura que se faz de tudo que está se pensando, que está se fazendo. Eu mesmo acho que é um absurdo, ver que essa experiência foi feita assim. Ela não foi divulgada na verdade".
 
Este é um consenso entre os especialistas: a construção escolar é um dos exemplos mais significativos da arquitetura paulista
 
     Hoje mais de uma centena dessas unidades compõem , oficialmente, nosso Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural. Ao analisar algumas páginas da história da arquitetura escolar e da construção das escolas públicas paulistas, depois dos primeiros anos do século até agora, o que se vê é a marcha do tempo apressando as entidades da educação para atender a demanda que está sempre lá na frente, em corrida desenfreada exigindo mais obras, mais ampliações e mais manutenção, num contínuo processo de esgotamento de recursos orçamentários e de desgaste dos administradores educacionais.
     "Então isso daqui é o mundo cão mesmo, você não imagina, as coisas vão para a obra, os caras roubam tudo na obra, a vizinhança rouba, rouba material, rouba isso, aquilo. Tem coisa que não dá nem para escorar. Os caras vão lá e roubam toda a madeira do escoramento. É assim, é daí para a frente. Isso daqui é assim, aonde a gente vai pôr um equipamento desses? Na periferia, nos locais onde são carentes deste tipo de equipamento, lugares que estão crescendo. No interior a história muda muito, é outra relação. A comunidade cada vez menor a relação é cada vez mais tranqüila".
     Esse trecho de entrevista de uma arquiteta, funcionária da FDE mostra-nos o conflito das populações da periferia e a produção da arquitetura escolar.
 
 
 
 
 
     Esses espaços se abrem à comunidade cumprindo uma função maximizada da educação pública. Assim o convívio da população com essa materialização cultural, tecnológica é significativo. A sedução que os edifícios podem emanar cumpre um papel de coesão do tecido social da comunidade da periferia, com a metrópole vizinha e que produz a arquitetura e sua tecnologia. O arquiteto nesse contexto tem sua obra aberta aos mais intensos conflitos e o sucesso da mesma é talvez um dos mais difíceis trunfos que o profissional pode conseguir.
 
Os projetos, dentro da metodologia da FDE respeitam a padronização de componentes e de ambientes até certo ponto
 
     Salas de aula, ambientes administrativos e de serviços são extremamente semelhantes nos projetos. A ruptura, se é que assim podemos chamar, se dá no recreio coberto. Essa é uma ruptura bastante feliz em todos os casos. Talvez em função do tamanho do terreno, à exceção da escola do Tibau, não se percebe nos demais casos, um compromisso com a vivência nos espaços abertos. Estes aparecem com funções de estacionamento, gramados ou às vezes nem isso, simples recuos desprovidos de qualquer significado ou interesse.

 
 
 
     Dentre as opções escolhidas pelos arquitetos talvez esteja aí a maior crítica cabível, seus projetos não incorporaram a necessidade de áreas abertas com tratamento paisagístico apropriado à um sítio público, para o desfrute da população escolar ou não, tão carente desses espaços. Limitaram-se ao equipamento em si: o edifício escolar. Em vários locais percebemos a proximidade de escolas construídas em épocas pouco espaçadas, visível pela semelhança dos materiais e de diretrizes projetuais e construtivas. A observação nos faz pensar que na repetição do equipamento talvez coubesse reparação de intenções de atendimento à população. A periferia, carente de toda sorte de equipamentos públicos, recebe as escolas sem tratamento de entorno. As razões de preocupações com segurança justificam o muro alto que também tenta impedir a entrada de drogas. Indistintos porém ficam esses prédios, em sua articulação com o tecido urbano adjacente de outros equipamentos públicos. Delegacias de Polícia, Postos de Saúde, órgãos assistenciais e outros edifício do poder público. Todos esses equipamentos parecem ter adotado a padronização elaborada para a arquitetura escolar e em seu crescente aparecimento homogeneizam cada vez mais a imagem do edifício de atendimento ao público sem se levar em consideração a diferença dos objetivos de cada atendimento. A idéia geral é de que esses edifícios atendem às camadas mais desprovidas da população, não importando para que fins.
     A arquitetura escolar parece ser a exceção nesse contexto. A premiação da Escola Galo Branco de Barossi & Vilella na IV Bienal de Arquitetura de São Paulo é prova disso.
     Também outras escolas construídas na década de 90, após o Plano Ano 1 buscaram a diferenciação de seus edifícios do restante dos edifícios públicos. Ainda que não tenha se verificado o mesmo caráter experimental detectado em alguns exemplos do Plano Ano 1 estudados aqui. Essa produção foi mais comportada, contida em seus materiais e técnicas construtivas e dispondo de terrenos menores, pouco apresentou em termos de equipamentos em áreas externas, paisagismo, etc.
     A permanência dos traços de padronização rígida em todo o setor público encontra forças na lei de licitações. Organizadas pôr prefeituras e outros órgãos com base na melhor técnica e no menor preço, os participantes buscam resolver o mais rápido possível o quebra-cabeças do programa na implantação do respectivo lote sem se aprofundar em propostas mais complexas. Esses projetos encontram-se em nível bastante inferior aos da FDE com o agravamento de que são cada vez mais numerosos com a política de municipalização da educação básica. Continuam sendo exemplos de exceção as escolas especiais como as do SENAC e SESC, cuja arquitetura é bastante valorizada, sempre cercada de complexos programas para o atendimento às comunidades onde se localizam.
     O concurso realizado pelo IAB alguns anos atrás, para uma escola padrão para a FDE teve a participação de 300 escritórios de arquitetura. O projeto vencedor, no entanto, não foi assumido pela fundação, que chegou a divulgar a realização do evento em suas publicações.
     Conclui-se pôr fim que a consolidação da arquitetura escolar no Estado de São Paulo colocou-a em posição de destaque na produção geral de arquitetura no estado.
     Ela permanece com um status adquirido ao longo do século XX e entra no novo século como uma referência da educação pública que se confunde com ela mesma . Ou seja o "prédio escolar se confunde com o próprio serviço e com o direito à educação. Embora colocado no rol dos itens secundários dos programas educativos é o prédio das escola que estabelece concretamente os limites e as caraterísticas de atendimento. E é ainda objeto concreto que a população identifica e dá significado". (Mayume Watanabe _ Texto para Qualificação de Doutorado _ Faculdade de Educação da USP, 1988).
 
 
Bibliografia
 
      ____________ Arquitetura Escolar e Política Educacional - Os programas na atual administração do Estado. São Paulo, FDE, 1998.

      ____________ Catálogo de Componentes e Serviços - Boletim 12- São Paulo: FDE, 1988.

      ____________ Especificações da Edificação Escolar de Primeiro Grau - Vegetação e Paisagismo. São Paulo: FDE,1990.

      ____________ Especificações da Edificação Escolar de Primeiro Grau - Ambientes - São Paulo: FDE, 1992.

      ____________ Especificações da Edificação Escolar de Primeiro Grau - Identidade Visual/ Sinalização. São Paulo: FDE, 1990.

      ____________ Escolas Estaduais de 1º Grau Projetos Arquitetônicos 96/97 - São Paulo, FDE. 1997.

      RAZABONI, Carlos Augusto. Arquitetura Escolar: 60 projetos para a Região Metropolitana SP - Plano Ano 1 do Banco Mundial - FDE - Fundação para o Desenvolvimento da Educação - 1991. São Paulo, 2001. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) FAU-USP.