Revista da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Tecnologia
Vol. 4 Nº 1 Out. 2002
ISSN 1517 - 7432
 
 
Arquitetura e Informação
 
  Samir Hernandes Tenório Gomes 1
 
 
 
Gomes, S. H. T. Arquitetura e Informação. Revista Assentamentos Humanos, Marília, v4, n. 1, p25-38, 2002.
 
 
Abstract
 
     The constant efforts to make agile and structured information available to all areas of scientific knowledge has given undeniable support to the development of our society, especially in the areas connected to technical-cultural production. In the area of architecture, the increased demand for information created in these past years, together with the lack of a strategic plan to enable the dissemination of the information, has resulted, in most cases, in the incorrect destiny of the principle transmission channels of information in this area.
 
      Key Words: Dissemination of information, architecture and information.
     Palavras-Chave: Disseminação da informação; informação e arquitetura.
 
 
1 Mestre em Ciência da Informação - UNESP - Campus de Marília. Prof. da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - UNIMAR - Universidade de Marília.
 
 
Introdução
 
     Planificar a atuação da informação na área da Arquitetura, aparentemente é tarefa ainda muito pouco exercida por arquitetos, comunicadores ou cientistas da informação. A maneira recente como tem-se desenvolvido a recente produção científica no país, no âmbito da informação, e mais especificamente, com os reflexos das novas tecnologias da informação junto à Arquitetura , parece até agora ter gerado pouco volume de produtos informacionais nesta área de atuação . Por outro lado, a interatividade de todos os campos do conhecimento científico tem aberto um caminho enorme de novas possibilidades de investigações, propiciando uma revolução estratégica na área da informação.
 
Abordagem Histórica
 
     Uma visão histórica, ainda que extremamente sucinta, destes contínuos avanços para disponibilizar a informação na área da Arquitetura, de maneira articulada, mostra-se muito útil. Alguns aspectos históricos, envolvendo agentes estratégicos no processo de mudança, representam a prova marcante desta atitude. Por exemplo, por volta do ano de 1435, Gutemberg , na cidade alemã de Mainz, teve a idéia original de gravar em pedacinhos de madeira as letras do alfabeto; em seguida, executando um trabalho como de quebra-cabeça, os justapôs para formar palavras, linhas, frases e páginas. Este processo significou inventar a imprensa, revolucionando todos os padrões existentes do mundo de então. Logo, as portas se abriram para as obras poéticas e outras, e os escritores, restritos ao âmbito dos intelectuais, puderam se dirigir às massas populares.
     0 Período Renascentista ( século XV ) vê a reelaboração das relações projetuais no plano de uma radical renovação da figura do arquiteto dentro do contexto social. A Arquitetura torna-se agente atuante na sociedade de então, atribuindo-se a ela, uma dimensão cultural importante, embasada num contexto técnico. A profissão, integrada com a arte renascentista, converte-se pouco a pouco em profissão projetual, cujas normas devem ser estabelecidas e os tratados técnicos definidos como diretrizes do arquiteto. Teorias de simetria, das relações matemáticas, da proporção áurea e da harmonia das medidas humanas, começam a ser desenvolvidas e difundidas. Mas de certa forma, neste período e na Arquitetura, como diz Gregotti (1978), quase inexiste a disponibilização da informação localizada em bibliotecas . A construção de conceitos e teorias , entretanto, marca o desenvolvimento dessa época tão rica que foi o Renascimento.
     O Maneirismo ( século XVI ) propõe o conceito de imagem para a Arquitetura , a partir da descoberta da dimensão psicológica da arte. Os arquitetos se esforçam em codificar a sua própria tradição lingüística, na mais impressionante construção de tratados de todos os tempos. O Maneirismo faz emergir a questão da reconstrução do conhecimento científico arquitetônico, colocando em execução as novas descobertas de investigações na Arquitetura.
     A história transformou-se em um campo propício de experiência. O espírito de debate e transformação pauta a atuação dos principais arquitetos e denota o importante período que é o Barroco ( final do século XVII ) : Borromini, Guarini, Vittone, são exemplos de arquitetos que inventaram o sistema geométrico-construtivo e promovem a sistematização da informação, formando assim na sociedade, algo próximo de um plano de disseminação informacional mais apurado.
     O Neoclassicismo ( século XVIII ) descortina outro importante período de intentos de disseminação da informação na Arquitetura, fixando bases e parâmetros relevantes na época. O grupo de textos escritos, entre 1760 e 1762, por Winckelmann, Lessing, Mengs e Piranesi; aqueles de Milizia e de Lodoli, escritos entre 1781 e 1786, e os dos arquitetos da Revolução Francesa, ao início do século XIX , surgem como exemplo disto. Assumem-se assim, características teóricas bastante relevantes das atividades da Arquitetura junto à sociedade. O papel conciliador destas informações conceituais desenvolvidas por estes arquitetos e compilada em forma de textos teóricos, contribui em muito para a estruturação de uma Arquitetura que necessitava firmar o seu papel verdadeiro na construção até de um mercado de trabalho mais estruturado.
     A Manualística Oitocentista tem em mira a missão de catalogar o esforço empregado ao afrontar o problema das novas tipologias das técnicas construtivas e o seu domínio. Por isso, propiciar o manual de projetação era uma necessidade técnica e profissional; o exercício da profissão tornava-se cada vez mais difícil, no domínio de sua extensão de atividades, e demanda uma unidade teórica para além de sua eficiência técnica.
     Umas das atitudes que intentaram para reassumir, controlar e sobretudo difundir uma série de experiências cada vez mais complexas tecnológica e tipologicamente, foi a edição do Précis des leçons d'architecture, de Nicolas Duram. Neste período, ainda surge o problema da transmissão pedagógica, extrapolando o sistema de ateliê. A escola, de certa forma, tornou-se a codificadora dos parâmetros e dos instrumentos de projetação na Arquitetura.
     No final do século XIX, com o fenômeno do Art Nouveau, assisti-se a uma imprevista transformação no campo conceitual da Arquitetura. Uma nova palavra de ordem regula os aspectos projetuais arquitetônicos : a qualidade. Escritos teóricos procuram sistematizar tais postulados, traçando um novo perfil para este campo do conhecimento, a fim de superar as barreiras de gêneros estilísticos a que estava ligado o papel do arquiteto de 20 anos atrás. O interesse pelos instrumentos tecnológicos e pela técnica desponta como o grande fio condutor da Arquitetura do final daquele século. A informação já está muito mais apurada e disponibilizada, principalmente nos recém criados Centros Tecnológicos de Engenharia e Arquitetura, para onde convergiam os principais arquitetos da época.
     O começo do século XX foi marcado por uma profunda transformação na postura dos arquitetos : era o limiar do mundo da vanguarda. Entre 1910 e 1930, a cultura dos arquitetos estruturava-se baseada em alguns grupos, como o neoplasticismo, o surrealismo, o futurismo, as vanguardas soviéticas e o purismo. Estas correntes apoiavam-se na tentativa de proposta de uma linguagem nova para uma sociedade igualitária, onde o conceito do academicismo deveria ser abolido. A opção de novos materiais e novas técnicas propiciou a percepção sensível de uma nova idéia de espaço. Podemos afirmar que novos meios de representação e novas tecnologias de comunicação foram inventados então.
     Outro momento importante para a ciência em geral e que atinge a Arquitetura foi a descoberta oficial da fotografia, no ano de 1839, por Daguerre, que aplicou seus conhecimentos fotoquímicos para reproduzir as imagens de um objeto. O mais importante para este avanço foi a passagem de todas as experiências visuais, humanas e artísticas, do plano restrito da aristocracia, para o plano mais acessível de pessoas que não podiam pagar um pintor para que as retratassem ou não podiam viajar para estudar as obras pictóricas e escultóricas mais importantes. Portanto, quando no último decênio do século XIX, a reprodução de fotografias se tornou comum, isso facilitou sua difusão em massa; os fotógrafos então tomam o lugar dos desenhistas e pintores. O importante passo dado pela fotografia era o de reproduzir fielmente tudo que existe bidimensional e tridimensionalmente na Arquitetura; ou seja, todo o edifício.
     A fotografia representou o principal suporte de comunicação, surgido nesta época, desenvolvendo estreita ligação com a Arquitetura ( Montaner, 1987, p.146 ). Graças à fotografia, os edifícios converteram-se em imagens para as revistas, divulgando e disseminando obras que ainda não tinham sidos explicitadas à humanidade; a fotografia trouxe um novo sistema e uma nova maneira de transmissão de imagens.
     Zevi (1994, p.50 ) destaca a contribuição da fotografia neste processo de comunicação dos signos arquitetônicos. Neste sentido, a fotografia veio resolver grande parte do problema de representação em três dimensões na Arquitetura, retratando o edifício em seus aspectos tridimensionais, menos a sua essência espacial, que diz respeito ao espaço interior, o espaço psicologicamente vivenciado apenas pelo usuário. Entretanto, podemos dizer que a fotografia capta o edifício de um único ponto de vista, estaticamente. Como diz Zevi (1994,p.50 ) : "cada fotografia é uma frase separada de um poema sinfônico ou de um discurso poético, cujo valor essencial é o valor do conjunto."
     Outro estágio importante no processo de representação dos espaços arquitetônicos , foi a descoberta e a utilização da cinematografia. Esta aplicação acabou, em certo sentido, resolvendo o problema colocado pela quarta dimensão, que era ampliar a "vivência" espacial do edifício.
     De um modo relativamente rápido , o crescente acúmulo de informações gerados na área da Arquitetura, desencadeados à partir da década de 30, produziram efetivamente um turbilhão de informações. Textos teóricos, tratados de Arquitetura, revistas informativas, a reprodutibilidade da fotografia, anais das confederações de classe, a pesquisa científica, tudo isso colaborou para a democratização da Arquitetura, por meio da geração do conhecimento e da informação. As escolas de Arquitetura também desempenharam papel importante no processo de geração e de apropriação da informação, funcionando como pólo de atração dos arquitetos e dos pesquisadores.
     No final dos anos 60, surge outro suporte, como importantíssimo canal transmissor das informações na Arquitetura : o vídeo. A carga simbólica e expressiva que ele proporciona, estabelece uma relação nova na dialética homem-Arquitetura. Cano (1987, p.56) se expressa sobre esta nova atividade surgida :
    
 O vídeo, como o cinema, ao ter a capacidade de poder combinar as formas móveis do espaço e obter assim as formas do tempo, tem a possibilidade de representar a experiência espacial produzida pela sucessão contínua de pontos de vista, que o espectador percebe em seu movimento dentro e em torno do edifício , e , inclusive de resolver o problema colocado pela Quarta Dimensão.

     Com o surgimento da utilização do vídeo na Arquitetura, as novas tecnologias informacionais começam a desempenhar o seu papel produtivo na esfera arquitetônica. Aos poucos, estas alterações começam a ser sentidas na Arquitetura , tendo como fase inicial o final da década de 70.
     Configurando-se um contínuo progresso experimental e técnico das artes, como a poesia, a literatura, a pintura, a escultura e a música, a humanidade presenciou a difusão dessas manifestações culturais de uma maneira extremamente impactante e reveladora do conhecimento científico. Neste contexto de desenvolvimento, conforme destaca Zevi ( 1894, p. 30 ), a Arquitetura manteve-se isolada em todo o período do século XX :
     
Mas, em todo esse processo, a arquitetura mantém-se isolada e só. O problema da representação do espaço, longe de ter sido resolvido, ainda nem foi colocado. Por não termos até agora a definição exata da consistência e do caráter do espaço arquitetônico, faltou a exigência de representá-lo e difundi-lo. Por essa mesma razão, a educação arquitetônica é totalmente inadequada.

     Esta afirmação contem seu lado de veracidade. A Arquitetura sempre manteve este lado "isolado e compartimentado" ao longo da história técnico-cultural. Todos os avanços tecnológicos arquitetônicos sempre tiveram bastante dificuldade de serem disseminados e divulgados em todos os meios de comunicação. A representação do espacial refugiara-se na maioria da vezes, na esfera dos pequenos círculos eruditos. O grande público sempre teve muita dificuldade de compartilhar deste aspecto revelador da Arquitetura. A representação dos edifícios, que encontramos na maioria das histórias da Arte e da Arquitetura, serve-se de plantas, elevações, cortes ou seções e fotografias e esta representação sempre foi de difícil compreensão para o grande público.
     Gregotti ( 1978,p. 12 ) explica este fato e defende que a Arquitetura apresenta-se numa situação um tanto especial. Sua qualidade, enquanto ato artístico de autoconstituir-se como significado espacial e territorial, não se limita simplesmente ao fato de ser representada por um conjunto de desenhos. Conforme esta visão, o projeto arquitetônico, constituído de plantas e elevações, não é ainda Arquitetura, mas tão somente um conjunto de símbolos com os quais tentamos fixar e comunicar nossa intenção projetual. Essas notações convencionais são abstratas e não autônomas de uma imagem que tentamos formar por meio de um projeto. No caso do projeto de Arquitetura, este conjunto de símbolos e notações desempenham papel de importância na ação significativa. Neste linha de raciocínio, esses elementos de representação se fazem necessários, pois já validaram um discurso legítimo de produção arquitetônica no processo de criação.
     A Arquitetura tem sido definida como maneira de organizar o espaço; dessa maneira, decorrem os conceitos de organização e de espaço e, sobretudo, as conseqüências das relações entre eles. Organizar supõe estabelecer um sistema de ordem entre elementos que naturalmente apresentam-se desordenados. Toda organização exige uma mediação, um elemento ou forma. Exige um signo que demonstra e indica a forma de organizar; portanto, toda organização é lógica, é linguagem produzida através de signos, que por sua vez são representações desta organização.
     Em conseqüência, essa "tradução" faz com que se entenda a linguagem da Arquitetura como submissa aos veículos expressivos usados, no presente e no passado, para a comunicação das soluções projetivas; assim, passa-se do croqui ao desenho técnico, da maquete aos recursos infográficos.
     Nos anos 80, esta formulação começa a ganhar mais espaço, chegando à sua consolidação finalmente nos anos 90 . O suporte digital na Arquitetura já é uma realidade. A informação agora não só configura sua atuação nos suportes convencionais, mas se estabelece nos novos suportes informáticos. Lévy (1998, p.67 ) destaca esta mudança dizendo :
     
Nos laboratórios de química de síntese, nos departamentos de engenharia de arquitetura, de urbanismo ou de construção mecânica, onde são concebidos os novos circuitos eletrônicos de alta velocidade, utilizam-se sistemas de concepção assistida por computador (CAD).

     A Arquitetura, estudada como linguagem, é fluida e mutante como a cidade e essa mutação caracteriza o repertório cultural que transita do emissor arquiteto ao usuário-receptor, para fazer conviver quantidade e qualidade de informação; é , sobretudo para ambos, uma constante exigência de escolha entre alternativas.
     Essa relação escreve uma história do ambiente construído, através do processo de comunicação que se estabelece entre a intervenção cultural do arquiteto e o modo como atinge usos e valores do espaço. O estudo da Arquitetura, como linguagem, propõe o estudo do espaço construído e habitado nas suas representações e no diálogo histórico que estabelece entre maneiras de pensar e transformar o espaço. Entender a Arquitetura como linguagem é assumi-la como instrumento de intervenção cultural, interagindo arquiteto e usuário.
 
Informação e Arquitetura
 
     Informação e Arquitetura - esses são os dois binômios básicos do presente trabalho. Nestas duas linhas, consolidamos a trajetória prevista para o encaminhamento de uma proposta. Procuramos tratar dos elementos básicos que norteiam as duas ciências, atendo-nos naturalmente, a algumas as definições. Por conseguinte, a escolha se deu sempre atrelada ao processo informacional como um todo. Depois de definidas e conceituadas Informação e Arquitetura, partimos para o entrelaçamento destes dois conceitos.
     A constituição paulatina de uma imensa rede de comunicação modificou totalmente a nossa relação com o espaço e o acesso à informação tornou-se uma atitude fundamental em nossa atividade humana. Até bem pouco tempo atrás, seria difícil pensar que o processo cumulativo desta revolução informacional poderia de, uma certa forma, influenciar a Arquitetura e o espaço urbano.
     Orciuoli ( 2000 ) abre uma reflexão sobre a Arquitetura inserida num cenário que pode ser chamado de globalizado, imáterico ou digital, sugerido pelas novas tecnologias informacionais. Portanto, um olhar oblíquo do estudo das práticas urbanas e da Arquitetura, em processos de globalização e informatização vividos pela experiência contemporânea, estabelece novos conceitos e modos de vida, a partir da revolução tecnológica. A miniaturização, a desmaterialização e a aceleração dos fluxos de informação são fenômenos atuais que fazem com que o suporte físico tenha cada vez menos importância. Novas possibilidades do "ser e estar" nos levam a ambientes regidos pela cibernética e pela virtualidade.
     Lévy (1998) aborda esse tema, dizendo que : "...o armazenamento, a transmissão e o processamento automático das informações digitais interpõem uma mediação entre os sujeitos humanos e seu tecnocosmo."
     Mas , de que maneira percebemos estas e outras alterações, em nosso dia-a-dia ?. Algumas modificações são realmente evidentes e trazem, à nossa vista, elementos impressionantes e paradigmáticos de nossa vivência urbana. A invasão dos computadores pessoais em nossas atividade bancárias ou a intercomunicação entre as pessoas por meio da Internet geram, a cada instante, novas informações que são incorporadas em toda essa rede mundial de comunicação.
     Esclarecendo sobre estas modificações, Novak ( 1999 ) nos diz :
     
Após um século de surpresas, a Arquitetura depara-se com a maior de todas elas : o desenvolvimento de uma forma sem precedentes de espaço digital urbano e arquitetural, um espaço público global e sem existência física. Embora as infra-estruturas deste domínio público não-local se encontrem já em fase adiantada de construção, carecem ainda da atenção de um discurso arquitetural informado e crítico.

     Estamos vivendo a civilização da imagem e do audiovisual. A leitura convencional tende a diminuir entre as novas gerações, verificando-se que o tempo de assistir à televisão ou jogar um videogame não pára de crescer. São mudanças significativas ? A superficialidade dos relacionamentos humanos tende a aumentar, produzindo uma geração da imagem e do espetáculo. Mas, outras modificações são bastante sutis e , na maioria das vezes, são passadas despercebidas pelos nossos olhos e por outras formas de percepção.
     O processo de digitalização tem afetado consideravelmente todos os tipos de mídias tradicionais, como o papel, as artes gráficas, o rádio e a televisão, e tem feito com que estes elementos migrem rapidamente para a mídia digital, capaz de portar os mais variados suportes informacionais. A tecnologia da informação tem permitido esta digitalização em considerável medida, junto aos artefatos culturais, provocando no âmbito das manifestações culturais, um turbilhão de mudanças. É preciso atentarmos para a definição que Negroponte (1996, p. 234) faz deste processo : "digitalizar significa transformar uma determinada informação em seqüência ordenada de bits, capazes de serem interpretados e reproduzidos pelos computadores."
     Quando utilizamos a informação contida em um livro, o suporte físico deste funciona como essencial para que a informação seja de certa forma manipulada, armazenada ou comercializada. Ao digitalizarmos, deflagramos um processo onde o computador funcionará como um mediador entre o usuário e a informação. A informação digitalizada pode então assumir a idéia do não território , de um lugar não definido no espaço, podendo ser distribuída via redes telemáticas, como por exemplo na Internet, onde a informação pode ser compartilhada de forma global. Lévy ( 1996, p. 49) evidencia esse processo, dizendo : "(...) a digitalização estabelece uma espécie de imenso plano semântico, acessível em todo lugar , em que todos pudessem ajudar a produzir, a dobrar diversamente, a retomar, a modificar, a dobrar de novo..."
     Outro aspecto importante da digitalização, é que ela muda a nossa perspectiva quanto à elaboração do produto cultural produzido pela sociedade, na medida em que permite a replicação digital, desaparecendo o conceito de cópia e origem. A reprodutibilidade técnica passa então por um processo transformativo, tendo na desterritorialização seu ponto central.
     A digitalização está colocada apenas como um elemento importante em todo este movimento maior que é a virtualização. Neste sentido, temos uma definição de Lévy ( 1996, p. 70 ), quanto aos seus sujeitos mais importantes na virtualização do espaço e das coisas :
     
A virtualização não é uma desrealização ( a transformação de um real em um conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do objeto considerado : em vez de se definir principalmente por atualidade( uma "solução"), a entidade passa a encontrar a sua consistência essencial num campo problemático. Virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mutar a entidade em direção a essa interrogação e em redefinir a atualidade de partida como resposta a uma questão particular.

     Os processos informáticos representam, como técnica, o principal meio de potencialização do virtual ou da virtualização. A informática permite a virtualização da inteligência, porque faz com que ações complexas sejam digitalizadas e reproduzidas. Podemos então dizer que a digitalização desvincula a informação da sua mídia tradicional, desvinculando a "inteligência" da personalidade e eliminando o sujeito desterritorializado.
     Outro elemento bastante importante, que conecta todos esses conceitos pertinentes ao processo de virtualização na sociedade, é o ciberespaço. Como nos afirma Orciuoli ( 2000 ), a partir da popularização do termo ciberespaço, com a publicação da novela ciberpunk Neuromante , escrita por William Gibson em 1984, o sufixo ciber entrou no vocabulário contemporâneo descrevendo-o como um universo entendido mais além de uma simples questão física, estabelecendo inter-relações com as formas de conduta da sociedade digital, que se convencionou alcunhar como ciberespaço. Segundo descreve Gibson, é o mundo criado e nascido da justaposição entre a mente humana e a cibernética. O artigo remonta aos princípios da cibernética, descrito por seu criador, Norbert Wiener. Kybernetes, em grego, significa timoneiro ou governador, e foi aplicada pela primeira vez, em 1948, à teoria dos mecanismos de controle da mensagem.
     Nesta linha de pensamento, existe um "local" legítimo, democrático, onde há um consenso dos virtuais. Este "lugar" é o ciberespaço. A demonstração deste conceito de ciberespaço não é fato recente. A criação das primeiras redes de telégrafos, fazendo a primeira interface com o homem e suas atividades, fundamenta os primeiros passos para a dimensão cultural deste espaço.
     Lévy ( 1996, p.113 ) define o ciberespaço da seguinte forma :
     
No ciberespaço, em troca, cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente diferenciado, não fixo, disposto pelos participantes, explorável. Aqui, não é principalmente por seu nome, sua posição geográfica ou social que as pessoas se encontram, mas segundo centros de interesse, numa paisagem comum do sentido ou do saber.

      O traço contundente deste ciberespaço se refaz em todos os níveis culturais, artísticos, afetuais e econômicos. Sabemos que as alterações radicais nos mais diversos referenciais perceptivos e estéticos provêm de um fenômeno bastante complexo em que se insere a cibercultura. Neste sentido, Virilio ( 1993, p. 15 ) esclarece, de maneira clara e fecunda, a relação estreita que se estabelece entre a informação e a Arquitetura dizendo :
     
Definitivamente o debate em torno da modernidade parece participar de um fenômeno de desrealização que atinge, de uma só vez, as disciplinas de expressão, as formas de representação e de informação. A atual polêmica em relação ao midias, que surge aqui e ali em função de determinados acontecimentos políticos e de sua comunicação social, envolve igualmente a expressão Arquitetura, que não pode ser adequadamente desvinculada do conjunto de sistemas de comunicação, na medida em que está sempre sofrendo a repercussão direta ou indireta dos diversos "meios de comunicação" ( automóvel, audiovisual, etc.).


      Uma sociedade que se organiza cada vez mais sobre a dependência da produção de imagens e informações, e traz em si a crescente utilização dos meios de comunicação como suporte básico para o desenvolvimento, não poderia deixar de refletir alterações significativas em seu espaço habitável. Os meios tecnológicos como a TV, vídeo, computadores, grandes telas de alta resolução, estão cada vez mais espalhadas pelas nossas cidades. Desta forma, é impossível que arquitetos e construtores das cidades, deixem de lado esses novos meios de comunicação e informação e não reflitam nas mudanças que vêm ocorrendo não só nas pessoas, mas em todo o contexto urbano.
     No final do século XIX e começo do século XX, os meios de produção e representação tiveram papel fundamental de transformação na Arquitetura. A invenção dos carros, aviões e sobretudo os trens, trouxeram para a Arquitetura, um sentido de movimento e velocidade através de suas formas geométricas. Nesse primeiro momento, a Arquitetura tomaria conta da necessidade de se criar em mecanismos de determinação de percursos, roteiros e imagens em movimento. Ou seja, a idéia do movimento "real", representado pelos meios de transportes, foi crucial para que a Arquitetura passasse por um processo de transformação. Este exemplo pode ser muito bem visualizado no desenho da cidade de Brasília, projeto dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Nyemeier, onde a cidade é símbolo da presença do carro, baseada em eixos de grande fluxo viário, apesar do projeto original estilizá-lo com a figura de um avião.
     O conceito de formação espacial da cidade sofreu transformações radicais nas últimas três décadas no que se refere à organização urbana como um todo. A cidade se estruturava como uma espécie de introversão urbana, onde seus limites territoriais eram bem definidos e claros; cada aglomeração urbana funcionava como um polo centralizador e único, fazendo da cidade um espaço restrito e fechado; a forma arquitetural do prédio traduzia mais a personalidade individual do Arquiteto, do que uma sensação de conjunto espacial.
     Nesta perspectiva, a cidade deixa de ser uma porta de entrada ou um arco do triunfo, para transformar-se em um sistema de audiência eletrônica, onde seus usuários são menos habitantes , residentes privilegiados, para se tornar em agentes desmaterializados (usando o conceito de Lévy). As tecnologias avançadas do ciberespaço através de mutações sucessivas, organizam e reorganizam o meio urbano, dando a ele aspectos de dissolvente e interativo.
     De fato, o traçado original e a noção de limite sofreram mutações, tanto de fachada quanto no aspecto de confrontação. Por definição, a superfície-limite das construções traça o foco característico da visão da cidade. Como o espaço da urbe transmuta em um conceito desmaterializado, o acesso à cidade passa também por uma transformação substancial e a aglomeração urbana acaba mudando o conceito de fachadas frontais.
     Neste momento, fazemos a seguinte pergunta : em que medida a cidade nos faz face ?. A análise que se faz , é que a cidade jamais está diante de nós, mas sempre dentro dela. Ou seja, a experiência do espaço urbano é vivida a cada dia. Se na cidade ainda existe uma localização, um território definido, este se confunde com a antiga ruptura cidade/campo, do passado. Não somente os espaços dos subúrbios operam esta dissolução, mas a oposição intramuros/ extramuros dissipou-se com a revolução dos transportes , o desenvolvimento dos meios de comunicação e a telemática, trazendo profundas mudanças no tecido urbano. Assistimos de fato, a este mesmo fenômeno na transparência que os materiais de construção adquiriram, substituindo-se as pedras das fachadas, por materiais extremamente leves e transparentes, provocando um certa fluidez na aparência da cidade.
     Cada vez mais, o universo superficial das telas e imagens ocupa os espaços nas cidades e transforma o espaço urbano. De um lado, os computadores pessoais que trazem e levam informação, reorganizam o cotidiano das pessoas e refazem um novo estilo de vida; e de outro, os computadores portáteis que conectam seus usuários a redes sem referência posicional e transferem aos terminais de bancos, supermercados e instituições, uma gama enorme de informações, permitindo assim, um intercâmbio em escala global.
     Por outro lado, com a interface da tela ( televisão, computador, teleconfêrencia...), o que até então existia como elemento privado, passa agora a expressar uma visibilidade face a face, desaparecendo as antigas confrontações territoriais, e o ato arquitetônico passa a estar desterritorializado, envolvido em uma aura eletrônica, desprovido de dimensões espaciais e imerso no ciberespaço. O usuário humano não pode mais considerar a separação por barreiras físicas; hoje ela é resultante de um espaço urbano participante de uma configuração eletrônica, na qual o esquema do ponto de vista visual e a trama da imagem digital renovam a noção de urbe. O esquema do espaço público/privado desaparece, dando lugar a uma nova relação arquitetural. O que muda é uma nova planificação, muitas vezes imperceptível na interface homem/máquina, que toma lugar nas fachadas dos imóveis das cidades. Desse modo, as informações, representadas na superfície da tela como imagens, não estão mais restritas a um espaço único, mas estão sempre em permanente mutação e intercâmbio. Todas estas informações /imagens que temos disponíveis na tela, estão em constante processo de velocidade, refletindo em cada espaço urbano, sua aplicabilidade espacial.
     Confrontam-se aí dois procedimentos participativos que influenciam este processo. O primeiro, diz respeito aos elementos físicos e construtivos; o outro elemento, o imaterial, representa as imagens e mensagens que não possuem qualquer localização física ou estabilidade espacial. É este tipo de abordagem subjetiva do imaterial, que muitas vezes fica "escondido" por detrás das aparências mais claras. Os eixos e limites das cidades, das muralhas, ruas, edifícios, que ora existem- enquanto superfície/imagem e ora se apagam, sofrem constante manipulação no universo informacional. A revisão deste ponto de vista determina a mudança radical da percepção do mundo, ajustando as técnicas infográficas a um reajuste do real e da forma de representação da cidade e dos edifícios.
     Uma outra maneira de avaliarmos o impacto da virtualização na Arquitetura é assistirmos a uma produção da realidade sensível, na qual as percepções diretas e mediatizadas se confundem, para construir um representação instantânea do espaço arquitetônico. Esta observação direta pode ainda ser chamada por um tipo de teleobservação do ambiente, transferindo seu resultado para o suporte digital. Aquela visão euclidiana (um único ponto de vista) passa agora necessariamente por um diluição espacial, onde um meta-conjunto de percepções se desmaterializam. O espaço subverte-se a uma espécie de teleconquista das aparências e de redirecionamento espacial. Os novos veículos de comunicação e informação ultrapassam o modo tradicional de ação, produzindo a "videoperformance" da transmissão de imagens e representação instantânea dos dados. Como resultado desta súbita mudança de visão, desaparece o componente dimensional volumétrico e emerge a transparência como forma de reorganização espacial.
     A Arquitetura, consciente ou inconscientemente, passa por um processo de fratura morfológica, diante de uma sociedade informacional em constante mudança. A propriedade da transmissão eletrônica, ao mesmo tempo em que cria uma transparência dos objetos construtivos e renova as aparências físicas dos materiais , também altera a configuração morfológica da Arquitetura. Hoje, tratamos muito mais de estabelecer uma interface virtual, do que nos deslocarmos espacialmente nos ambientes. Esta "desconstrução" dos elementos arquitetônicos pode ser notada nas grandes estruturas metálicas do edifícios, valorizando muitas vezes o aspecto do vidro, concedendo a ele imagem de transparência e fluidez natural.
     No começo da década de 70, o grupo denominado Archigram começava a antever o potencial que a tecnologia da informação exerceria sobre a Arquitetura, nas suas mais variadas situações. Em 1967, o Archigram montou uma exposição em Londres, com propostas nada convencionais , onde o tema era "Viver em 1990", e propunham uma casa em que tudo pudesse ser reduzido, ampliado, transformado de mil maneiras, onde os afazeres domésticos seriam função de um robô e os materiais empregados em sua construção seriam diferentes dos usuais, indo desde partes de avião até perfis de alumínio. Mais de trinta anos depois, já no começo do século 21, ainda não vemos realizadas por completo todas as previsões anunciadas pelo Archigram mas, com certeza, a tecnologia tem ocupado cada vez mais tempo e espaço na Arquitetura. Archigram procurou refletir sobre a cidade através de seus mínimos detalhes, apresentando soluções inusitadas e criativas, sempre implantando a tecnologia a serviço destes ideais. A noção de movimento na cidade, para o grupo, era explicada como os fluxos de alta, média e baixa velocidades do tráfego de automóveis, de pessoas e carros que compõem a vida urbana.
     O processo de comunicação na cidade também desempenhava um papel extremamente importante nas idéias que o grupo difundia. As redes de comunicação representavam a principal estrutura urbana. Conforme estes postulados, Archigram colocava em cheque o formato urbano tradicional das cidades, contrapondo-se à imensa rede de satélites que circundam a Terra, e disponibilizava um permanente contato com centros comuns de distribuição instantânea de informações.
     O grupo também pesquisou experimentos em alguns equipamentos que comporiam as unidades habitacionais projetadas. Entre eles, destacavam-se robôs, que eram programados para executar diversas funções dentro da casa. Um dos elementos arquitetônicos da casa era uma parede de serviços, conectada a uma rede metropolitana de serviços telemáticos, que, a qualquer momento, poderia ser acessada pelos moradores. Essa idéia concretizava a oportunidade de um ambiente intercambiavel e mutável, através da inserção de serviços de informação e comunicação dentro do contexto da cidade. Neste sentido, os objetos arquitetônicos eram colocados como interface informacional entre a máquina/homem, resultando profundas transformações espaciais.
     Outro traço importante proposto pelo grupo Archigram, direcionava a possibilidade da criação de malhas informacionais que conectassem as pequenas cidades do interior às grandes metrópoles. Esta grande rede de comunicação e informação, já vislumbrada por este grupo, colocava em atividade TVs, sistemas audiovisuais, máquinas de entretenimento e jogos de iluminação, em um grande ambiente conectivo. Com isso, a cidade seria uma grande teia de troca de informações, mediada pelos novos meios da tecnologia da informação e da comunicação. Neste sentido, o grupo Archigram foi extremamente revelador e inovador, trazendo a discussão de identificar como a tecnologia de informação poderia transformar o ambiente construído, de forma atuante e concreta.
     Trata-se aí de um acontecimento importante para a Arquitetura, afetando basicamente seus princípios organizativos de espaço e colocando para a substância arquitetônica , novos pólos representativos da essência da construção. A Arquitetura, a partir de então, não se remete mais aos conceitos construtivos conservadores de paredes, tetos e coberturas, mas se apoia num ambiente carregado de virtualizações possíveis, repleto de informações infográficas, tecnologias computacionais e interfaces multidirecionais.
     Um exemplo bastante vivo desta virtualização da Arquitetura, é a utilização da informática nos projetos auxiliados por computador(CAD) e a fabricação auxiliada por computador(CAM). Normalmente são produtos realizados em softwares de auxílio de computador, como o AutoCad, e posteriormente texturizados e animados em outros softwares , como o 3D Studio, entre outros. Hoje, um fato extremamente comum, é encontrarmos publicações a respeito da "Arquitetura virtual". Nos escritórios de Arquitetura, a invasão dos computadores foi realmente muito grande. O abandono de algumas etapas na concepção dos projetos, foi de grande valia para diminuir o tempo considerável no desenvolvimento projetual. Maquetes virtuais são produzidas de forma relativamente simples, possibilitando a intervenção dos clientes e usuários com imagens digitais. Na fabricação auxiliada por computador, a redução drástica dos ciclos de "concepção-fabricação" é comprovada por todos aqueles que optaram por estes sistemas.
     A ferramenta de simulação no computador, na área da Arquitetura, vêm propiciando a sintetização de uma série de imagens e percursos do objeto arquitetônico antes impossível de se fazer. A simulação é o passo seguinte; com ela, conseguimos aplicar as variações aos modelos, colocando sob diferentes pontos de vista e diferentes possibilidades de condições "físicas", as infinitas potencialidades do modelo virtual. Com isso, podemos entender a simulação das imagens sintéticas, não só como imagens finais e acabadas, mas como uma "teia" de imensas correlações e extrapolações que o objeto pode adquirir.
     O universo virtual e sintético não está além ou aquém do mundo "real", mas estabelecido em um universo intermediário. Baseado em modelos lógico-matemáticos, este universo pode ser transformado em simulação "real", vivenciada pelos usuários, por meio das atividades sensoriais e intelectuais.
     Diferentemente do que acontece com os suportes de captura analógica como a fotografia, o cinema ou mesmo o vídeo, as imagens numéricas são construídas totalmente pelos homens. Esses projetos apresentam vistas e perspectivas dos edifícios de uma maneira muito mais rápida e eficaz do que antes, quando eram feitas por desenhistas em um tempo muito mais longo. Esta integração via computador, antecipa o produto final para os testes de amostragem e fabricação. Mesas "captam" desenhos originais das pranchetas e migram para o ambiente digital, formando assim imagens digitalizadas e virtuais.
     Esta interface amadurece a relação homem-máquina, na medida em que substitui numerosas relações matemáticas de verificação. Podemos concluir que o enquadramento do ponto de vista dos projetistas na tela do computador, não tem mais nada em comum com o dos espectadores e telespectadores, ou a referência da representação gráfica e fotográfica, na medida em que a interface atingida por este suporte digital possibilita um conjunto enorme de virtualizações prováveis para seus usuários.
     A confluência entre a Arquitetura e as novas tecnologias informáticas trouxe um ponto importante de aplicação : o uso da tela do computador para que, mediante a representação analógica do projeto, este possa ser analisado. A tela, com o programa correspondente, permite todo tipo de manipulação : contemplar os interiores a partir de pontos de vistas mutantes, comprovar que produzem diferentes sistemas de iluminação, calcular a estrutura, estudar o processo de realização da obra, ver o futuro edifício em uma representação de seu contexto urbano. A tela se converte, em definitivo, numa representação diferente das possibilidades de realidade que o desenho tem. A virtualização na Arquitetura e suas possibilidades no campo digital, estruturam um novo conceito na feitura do projeto, refazendo assim etapas do caminho arquitetural.
     Nesse momento, começa a acontecer o desdobramento da visão, ou seja, surge uma segunda ótica : a teleótica. Hoje é possível realizar uma teleconferência entre São Paulo e Paris, em tempo real. A Guerra do Golfo possibilitou assistir ao vivo o bombardeio de cidades e pessoas, em uma guerra eminentemente eletrônica. Vemos, pouco a pouco, o declínio de importância da ótica geométrica, ou a ótica passiva do espaço. A introdução da teleótica que vincula o sinal do vídeo, refaz a questão da digitalização deste sinal, reconhecida por todos em todas as áreas, principalmente na utilização recente de espaços de realidade virtual. A superação da perspectiva geométrica tradicional por uma perspectiva eletrônica gera, por assim dizer, uma visão de tempo real, pela recepção instantânea dos sinais de áudio e vídeo. Este desdobramento da visão e do tempo afeta consideravelmente nossas relações espaciais e até mesmo filosóficas.
     Na realidade virtual, o uso do capacete (VPL) e da vestimenta transmissora de dados (Data Suit) no domínio do espaço virtual(Ciberespaço), provoca um primeiro desdobramento da pessoa, entre atual e virtual. O teleoperador, graças aos progressos recentes da teletactilidade , faz com que o alto relevo do toque à distância venha completar a alta fidelidade sonora e visual. Tecnologias fazem surgir um novo tipo de profissional na área da arquitetura, trabalhando exclusivamente com esta teleótica do desdobramento humano. Além de ampliar a nossa noção de espaço, refazemos todas as nossas percepções sensorio-motoras em todas as atividades desenvolvidas pela realidade virtual. A criação de ambientes virtuais está bastante ligada ao realismo visual e à interação, usando os outros sentidos. Assim, assuntos como computação gráfica em 3D , modelagem gráfica, e interação homem-máquina constituem uma parte fundamental na elaboração de ambientes virtuais. Em bem pouco tempo, poderemos experimentar este novo meio de expressão na Arquitetura, de forma bastante disseminada, a partir do momento em que essa tecnologia permita a imersão e a interatividade no espaço.
     Como nos apresenta Duarte ( 1999 ), as tecnologias digitais possibilitaram a construção, a divulgação e a experimentação de ambientes em redes de informação. O computador potencializou, pelas linhas telefônicas, um universo incessante e multidirecional da informação na sociedade contemporânea. Podemos citar, como exemplo destas aplicações, as possibilidades que vêm sendo exploradas com as tecnologias de simulação digital, no levantamento histórico e na análise de edifícios importantes para a história que não mais existem há décadas. Este trabalho de reconstrução vêm sendo principalmente desenvolvido em escolas de Arquitetura, em diversos lugares do mundo, utilizando como ferramentas de trabalho, os modelos e as imagens digitais desse prédios. Nesse compartilhamento entre informação e Arquitetura, as relações com os espaços públicos ou privados, de certo modo, vem operando e expressando novas práticas na sociedade contemporânea, e atingindo a produção de novos projetos, novas cidades ou novas instalações, num espaço eminentemente digital.

 
Conclusão
 
     Uma questão que se apresenta nesse novo quadro, descrito acima : de que forma o profissional de Arquitetura e Urbanismo tem se posicionado frente às novas tecnologias informacionais, na aplicação direta de tais inovações ? Ou ainda, trazendo para o campo das questões relacionadas ao processo de disseminação da informação, pergunta-se : quanto e de que maneira o processo de disseminação da informação, na área da Arquitetura, tem-se mostrado satisfatoriamente receptivo às novas tecnologias informacionais, diante da velocidade de produção e transferência da informação no mundo moderno?
     Diante destas questões, é válido dizer que os profissionais de Arquitetura, têm-se posicionado a favor da utilização das novas tecnologias informacionais no âmbito da Arquitetura; mesmo de maneira modesta, têm acrescentado novas responsabilidades e habilidades às tarefas que envolvam as conexões significativas inovadoras. Porém, o maior desafio, encontra-se na falta de articulações estratégicas de disseminação da informação, na área de Arquitetura, que, a par dos mecanismos viabilizadores de transferência de informação, parecem não qualificá-la como ferramenta de desenvolvimento a todos os usuários.
 
 
Bibliografia
 
      CANO, Eduardo. Quatro notas sobre vídeo e arquitetura. Projeto, n.105,p.146-147, nov.1987.

     DUARTE, F. Arquitetura e tecnologias de informação. São Paulo: EdUNICAMP, 1999. 197 p.

     GREGOTTI, Vittorio. Território da arquitetura. São Paulo, Perspectiva,1975.

     LÉVY, P. A ideografia dinâmica. São Paulo: Loyola, 1998. 228 p.

     MONTANER, Josep M. Quatro notas sobre vídeo e arquitetura. Projeto, n.105,p.146-147, nov.1987.

     VIRILIO, P. A bomba informática. São Paulo: Ed. Estão Liberdade, 1999. 160 p.

     ZEVI, Bruno. Saber ver a arquitetura. São Paulo, Martins Fontes, 1996.